Palavras de Analisa Elisiana Castro (foto abaixo), pesquisadora da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais. Historiadora reflete sobre as alterações nos rituais fúnebres no período da pandemia, com lutos incompletos, e sobre as mudanças na concepção de morte
Elisiana Trilha Castro é historiadora e presidenta da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC). Desde 2004, a entidade desenvolve pesquisas que reúnem diferentes áreas – História, Arquitetura, Sociologia, Geografia – para discutir a morte. A ABEC tenta, por intermédio de seus estudos, refletir sobre a temática e desmistificar os cemitérios como lugares sombrios, bem como trazer visibilidade ao setor e a quem nele trabalha. Elisiana também faz parte da rede nacional de apoio a famílias e amigos de vítimas da covid-19 e do Memorial de Vítimas do Coronavírus no Brasil. Nesta entrevista, ela busca refletir sobre os rituais da morte durante a pandemia.
Quais têm sido as preocupações da ABEC durante a pandemia?
A gente vem atuando nesses últimos meses propondo debates e reflexões sobre a pandemia, sobre os impactos, tanto que no segundo mês da chegada ao Brasil da covid-19, a gente já estava com dois documentos criados sobre os impactos que as restrições poderiam impor às práticas rituais. Naquele momento, estávamos preocupados com o efeito que iam ter nos rituais das famílias. Mal sabíamos que a gente iria viver praticamente um colapso funerário. Também é um colapso no sentido mais amplo, dos profissionais da área do setor funerário esgotados, muitos doentes, de um enterro atrás do outro. Acho, então, que não foram só as restrições. É claro que lá atrás a gente chamava atenção pros profissionais da área funerária, que nunca são vistos, independentemente de estarem envolvidos com as ações; eles, geralmente, ficam invisibilizados. É como se as pessoas, depois do hospital, sumissem. Elas não vão para lugar algum. Aquele caminho do corpo morto entre o hospital e o cemitério é como se não existisse, independentemente da pandemia. Parece que a pessoa já sai sepultada, e todo o caminho que é feito desde o agente funerário, do tanatopraxista que faz o trato do corpo, a atendente funerária que organiza a capela velatória, atende à família, ajuda na burocracia, depois o coveiro ou o sepultador, ficam todas essas atividades invisibilizadas na trajetória do corpo.
Então a gente estava mais preocupada com as famílias que se viam impedidas de ter os seus rituais, porque os corpos chegam lacrados. Vem o caixão fechado, a família não vê, a despedida é muito breve; em alguns cemitérios, quando é covid-19, não tem despedida. Há uma normativa mais geral, mas não há uma coordenação para isso, como não tem coordenação federal para outras questões fundamentais da pandemia, que literalmente crie uma postura única. E, então, se veem cidades que têm mais controle, cemitérios que têm mais controle com o tempo do velório, o número de pessoas e tudo o mais. São questões que se impõem ao sistema funerário diante da pandemia.
Como os rituais funerários, que são parte importante do luto, têm se alterado durante esse período? Existe a possibilidade de vermos diferenças nessas práticas rituais depois da pandemia?
As práticas são fruto de uma cultura, de quesitos religiosos; se se muda de religião, por exemplo, muda também a prática funerária. Estamos, pois, num campo em que não se pode dizer que não se vá voltar a praticar conforme os preceitos religiosos, as questões culturais de cada grupo, e também não dá pra dizer que se vá. É algo sobre o qual a gente vai ter que aguardar.
Hoje há uma imposição que as famílias são obrigadas a seguir: o caixão totalmente lacrado – e não é comum no nosso ritual funerário, independentemente da religião, o caixão ficar fechado direto. Em algum momento aquele caixão é aberto para pelo menos um olhar, uma última despedida, uma oração que seja. Salvo os casos de corpos muito impactados em que não se tenha feito uma necromaquiagem, uma reconstituição facial ou uma tanatopraxia – o que vai possibilitar uma recomposição física desse cadáver.
Muitas famílias estão chocadas com essa imposição e têm relatado que é difícil processar aquela perda sem poder reunir a família, sem poder fazer a oração com o líder religioso, sem poder fazer as suas cerimônias, sem poder ver aquele corpo para se despedir ou mesmo sem se ter o tempo que se quer para isso. É sempre muito comum as pessoas dizerem: “Ah, mas para que eu tenho que ficar velando esse corpo?”, “Essa família vai ficar aí a noite toda nesse velório?”. A família tem de ficar o tempo que ela quiser.
O corpo pertence ao seu grupo – o corpo não pertence nem mais ao próprio morto. Depois da nossa morte, nós passamos a ser um corpo social. Claro que se vão deixar algumas recomendações para a família, mas às vezes chega na hora e a família não sabe nem se a pessoa queria flor no caixão. Isso causa em muitos familiares certo desamparo, um desespero. Essas famílias, às vezes, têm uma série de questões sobre as quais elas já tinham até debatido em grupo e decidido o que iriam fazer – e chega naquele momento, basicamente, não podem ver nada, fazer nada. E não tem flor, não tem vela, às vezes não tem oração, não tem despedida.
Além disso, a gente tem que lembrar que os mortos de covid, e muitos outros que estão sendo agora internados por outras causas, são isolados da família de uma forma muito brusca. Entram na internação e não são mais vistos por ninguém da família. A família só recebe um caixão lacrado. Então, há um hiato como a gente nunca viu. Digamos, um corte, uma mudança muito radical, é uma coisa sem precedentes nas últimas décadas na questão do ritual funerário. O que que vai acontecer depois? Muito provavelmente as famílias devem voltar aos seus rituais, porque essas coisas são processos.
A ABEC fez a tradução de um guia para enlutados da covid-19. Podes falar como foi esse trabalho e também como se processa esse luto?
Esse guia foi feito na Espanha, bem no comecinho da pandemia aqui. Pedimos autorização dessas pesquisadoras na Espanha para fazer a tradução e divulgamos. Foi um dos primeiros guias que circulou bastante porque foi bem no começo da pandemia. Ele, em suma, é uma série de estudos da psicologia do luto, sobre como nesse momento as pessoas poderiam ritualizar suas mortes, dadas todas as limitações. Ele, então, sugere cerimônias online, que as pessoas preparem um espaço em casa, se assim o desejarem… São sugestões para ritualizar aquele morto, ou seja, criar um espaço de memória, já que não houve contato, já que não conseguiram se despedir.
Nós estamos falando aí de pessoas, às vezes, que, literalmente, só puderam identificar o morto por uma imagem de vídeo. O profissional filmou o familiar: “Reconhece seu pai?”, “Sim, é meu pai.” Então está feito o reconhecimento de corpo. E ali mesmo à frente da funerária o carro abriu a porta, tinha um caixão dentro, e deu cinco minutos para fazerem uma oração, dizerem alguma coisa, sem tocar no caixão – eles pedem para não tocar no caixão, apesar de ser desinfectado –, fecha a porta da traseira do carro funerário e vai para o cemitério. No guia, eles vão implicar uma série de possibilidades. Por exemplo, conversar com alguém sobre aquilo, falar da pessoa, revisitar se precisar suas memórias, organizar chamadas em grupo ou familiares para uma cerimônia online, convidar um líder religioso que possa fazer uma cerimônia também online. Eles vão estimular não uma transformação, mas uma reorganização desses rituais possíveis para pessoas quarentenadas.
Também fala como o profissional da saúde poderia lidar com seus familiares, chama atenção para a sua saúde mental, estimulando, por exemplo, a escrita criativa como uma prática de luto bacana, que as pessoas se manifestem através dela. Tem ainda uma seção dedicada a adolescentes e crianças sobre como lidar com isso, estimulando um diálogo, um acolhimento, uma elaboração do luto. Porque, na verdade, as práticas rituais fazem parte do processo de luto.
O luto é toda a elaboração daquela perda, é toda a forma como a pessoa vai conduzir aquela ausência. E os rituais fazem parte dessa elaboração. Podem ser rituais religiosos, rituais que você mesmo cria por sua conta… Tem gente que tem seus próprios rituais: ir ao cemitério, levar coisas particulares. É uma relação também muito individual da pessoa com aquele espaço da morte, que pode ser o túmulo, o lugar onde colocou as cinzas ou o lugar onde ocorreu a morte da pessoa. Eu já vi pessoas ritualizando no lugar onde o ente faleceu. Isso ocorre muito nas estradas, por exemplo, que têm aquelas cruzes. Isso tem muitos atravessamentos culturais, e acabamos repetindo algumas práticas que nos são passadas dos nossos ancestrais.
Estamos falando do direito aos rituais fúnebres, mas como fica o direito ao enterro de quem foi colocado em valas comuns, como se viu em Manaus, por exemplo?
Essa questão da vala comum tem várias implicações. Uma delas, que eu acho muito importante, é o direito a um sepultamento minimamente de acordo com o que a pessoa imaginava. Porque a vala comum acaba despersonalizando totalmente, pois tu não sabes mais onde está o ente querido, por mais que se tente demarcar. O que a gente escuta dos parentes é que se vai exumar o corpo dessas valas para que seja levado para o túmulo da família.
Vou usar o exemplo de Manaus, mas não só Manaus, muitos cemitérios, dada a contingência dos sepultamentos, não tinham tempo de pesquisar o túmulo da família. As pessoas esquecem que, para você sepultar alguém, tem um período entre um sepultamento e outro. Então, morreu alguém da sua família, você tem de achar um túmulo que não tenha recebido outro sepultamento em menos de quatro anos em média. É mais ou menos esse o período que se pede no cemitério. Às vezes acontece de os dois terem sido usados, e ele não pode receber. Aí se terá de providenciar outro túmulo. Outro lugar. E isso tudo leva um tempo.
O que a gente vê nessas valas comuns é a total ruptura dos ritos familiares, é a morte aos muitos, de pessoas que são despersonalizadas, do não direito à memória, ao ritual, de reunir os parentes naquele túmulo. São várias questões que a gente ainda vai ter que lidar durante um bom tempo. Muitas das famílias afirmam: “Como eu não tive nenhum ritual, esse luto não vai passar, eu não consigo”.
O que é preciso entender é que quando as pessoas aderem a um sistema cultural, a uma prática cultural, a uma ideia sobre a vida ou sobre a morte, de certa forma os rituais que fazem parte daquilo se tornam necessários para que ela consiga conduzir as suas relações tanto para a vida como para a morte.
Assim, se rompe aquilo que para ela trazia, digamos, o mundo presumido. Pessoas estão ali há décadas enterrando seus familiares, com velório em casa, onde elas chamam todo mundo, aonde vem alguém para fazer homenagem, o padre para benzer todo mundo, para acalentar, fazer uma oração… E depois tem aquele cortejo pela rua – falando de uma coisa bem tradicional de família do interior – e a volta pra casa para contar a história. E de repente, por conta da covid-19 e do período pandêmico, não teve isso, houve uma ruptura. A noção é de que a pessoa não foi sepultada. E, para muitos, isso acarreta uma série de pensamentos, almas que não descansam, por exemplo. “Fulano não teve oração, não teve a cova benzida”, “A minha filha não pôde fazer a gira, não pudemos fazer o ritual da nossa religião”. A gente tem visto violações gravíssimas em determinadas religiões de matriz africana, em que as pessoas têm de ser enterradas de uma forma específica, e por conta da pandemia isso não estava permitido. Como para os indígenas, que têm que repatriar o corpo, o que também não estava sendo permitido. Essas são algumas violações. E como é que essas pessoas depois vão lidar? Como elas já estão lidando? É muito complexo.
A pandemia deu mais visibilidade ao setor funerário ou apenas deixou evidente a exclusão?
A ABEC tem dado algumas entrevistas durante esse período para outros veículos e sempre que eu falo do pessoal do setor funerário dificilmente sai alguma coisa na matéria. Já entrei em contato com redes de TV que fizeram reportagens inteiras sobre a linha de frente dos profissionais que estão atuando, dizendo: “Gente, tem o pessoal do cemitério, das funerárias, que são linha de frente também”.
É claro que a gente tem, de certa forma, visto muito o tema dos mortos, mas não estamos lidando com a morte, estamos lidando com os mortos. Os mortos em números, mortos que nos assustam, que não param de crescer, da perda de vários conhecidos… Mas a gente não tem ainda discutido finitude ou mesmo a nossa relação com a morte.
Esses profissionais estão nesse local de invisibilidade porque justamente para eles foi delegado tratar da morte. Então, para repensarmos o lugar deles, a gente tem que repensar a forma como a gente também lida com a morte; e ela, em grande medida, é um tema oculto.
Se vai haver uma menor invisibilidade deles? Eu acho difícil. Porque, apesar de não serem os únicos a lidar com a morte, a nossa sociedade acabou relegando a eles essa tarefa. Eles falam não só dessa invisibilidade social, mas também de um preconceito mesmo de amigos. Muita brincadeirinha, muita piadinha. Um coveiro chegou a me relatar, nesse último estudo que estou coordenando, de ele entrar no ônibus, alguém o reconhecer e gritar “Ô coveiro!” e ninguém mais sentar ao lado dele. E chegar em casa e a mulher não querer nem que chegue perto, mandá-lo tomar banho. Só que ele sai do cemitério já de banho tomado, depois de trabalhar o dia inteiro.
Agora o que a gente tem que aproveitar é esse período para realizar trabalhos que deem voz para eles. Esse meu trabalho é isso. Eu peço que eles não só falem da pandemia, mas falem da profissão deles, para fazer com que as pessoas conheçam essas profissões, conheçam a rotina delas, as suas dificuldades. Essas pessoas têm rosto, são jovens, são mulheres, famílias inteiras – irmãos, filhos etc. – que são do setor. Se vai mudar o lugar da morte, eu não sei, mas talvez o modo como a gente vê a morte. E eles estão nesse espectro da nossa relação com a morte, com os mortos e com o morrer.
Por que o tema da morte é tão evitado?
Não é questão só do profissional, é do campo em que eles atuam, o campo da morte. Mesmo na medicina, o médico que vai cuidar dos cuidados paliativos lida com isso. Está dentro da forma como nós aprendemos, especialmente ao longo do século XX, a lidar com o tema da morte. À medida que a gente foi intensificando algumas relações sociais, muito derivadas do nosso modo de ver e também de lidar com as questões financeiras, econômicas, a gente também foi mudando o lugar da morte. Não combina com uma sociedade de consumo ter que pensar na morte.
Qual seria a lógica de uma pessoa que tem consciência da sua finitude consumir tanto, por exemplo? Ou seja, se a morte é uma certeza de momento incerto, muitas coisas perdem o sentido. Para que eu vou acumular tanto? Para que eu vou comprar tanto? Para que eu vou ter tantas coisas se não vou dar conta?
Essa negação da morte está no bojo das relações que a gente trava, também, economicamente. O modo operante do capitalismo é um modo também de comportamento social. O modo como a gente lida com as relações, com o tempo e também o nosso aumento de expectativa de vida. A gente consegue prolongar, consegue tratar doenças, então meio que afastamos essa ideia de morte.
É diferente de uma pessoa de tempos atrás, que tinha uma perspectiva de vida de cinquenta anos. Tu olhas para a pessoa e tem certeza de que ela morreu com sessenta anos. Tu vais olhar, e ela morreu com quarenta e um, por exemplo. O aspecto parece uma pessoa mais velha. Então, quando a gente alarga essa expectativa de vida, quando a gente descobre antibiótico, quando a gente tem o sistema hospitalar, que possibilita que a gente se salve de muitas coisas que as pessoas não se salvaram anos atrás, as vacinas, etc., imagina o avanço disso tudo para a saúde e para a forma como as pessoas, por isso, acabam esquecendo que irão morrer.
Tem outro ponto também nisso tudo: a nossa ideia de felicidade ligada à juventude. A gente quer estar sempre bonito, sempre bem; a gente tira do nosso corpo as marcas da velhice, as marcas de que você está findando a sua trajetória. Quanto mais as pessoas aparecem retocadas, menos se lembram que irão morrer. Elas mesmas esquecem que irão morrer.
Até a estética do morto sofre pressão. O morto não pode mais ter cara de morto. A gente escuta isso aos montes das pessoas que abrem o caixão: “Nossa, que lindo, parece que está dormindo”. No velório antigo, o cadáver não passava por nenhum tratamento funerário. Os cadáveres tinham cara de cadáver. Hoje em dia, ele está apenas dormindo, não faça muito barulho que pode acordá-lo.
Por: Eduarda Stefenon | Fonte: Jornal da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
