Saiba lidar com as incertezas

Os momentos de incertezas podem ser incrivelmente ricos em aprendizados e em novas oportunidades de reinventar nossa própria realidade


Foto: Hieu Van /Pixabay

Já faz algum tempo que atuo como jornalista autônoma, sem carteira assinada. Por isso, estou em constante atualização da caixa de entrada para saber se há novos e-mails com encomendas de texto. Estar à mercê das propostas de trabalho e fora de um ambiente controlado faz com que, entre uma reportagem e outra, exista incertezas em abundância acompanhadas de seu derivado mais comum, a ansiedade.

O exercício diário é entender, com paciência e confiança, que esse é um processo nem um pouco definitivo e cheinho de múltiplas possibilidades. Como ainda estou aprendendo com esse cenário onde prevalece a ausência das certezas, quero aproveitar esse ponto em que nada é certo para começar a trilhar o texto que segue.

Em um ano de tantas mudanças nos diversos cenários, ao nosso redor e no universo particular, o ensinamento mais presente é de que é preciso saber lidar com algo intangível. O fato de que nada é totalmente certo. Afinal, apesar do falso controle sobre o plano das coisas previstas, a certeza é algo que escapa a todos, como um amontoado de dentes-de-leão já assoprados. E tudo bem. Mesmo.

Imprevisibilidades em alto grau

O movimento das incertezas tem um fluxo contínuo. Na maior parte do tempo se comporta de forma sutil e delicada, mas às vezes se faz abrupto, impondo-se a nós. Não é assim?

A verdade é que temos de lidar, percebendo ou não, com um alto grau de imprevisibilidade o tempo todo, desde as incertezas mais duras de encarar aquelas miudezas do dia a dia, que também nos fazem sofrer. Grávida do primeiro filho, a escritora e cantora Olivia Byington preparava um quarto com lençóis de linho branco para o berço e bordados feitos à mão.

Mas as coisas não aconteceram de acordo com o roteiro preestabelecido e ela precisou superar algo inesperado. O primogênito nasceu com síndrome de Apert, uma desordem genética que causa um desenvolvimento anormal da caixa craniana, entre outros problemas. A aparência de João não era de um bebê perfeito, como almejava Olivia. “Foi triste entrar no quarto que havia sido preparado para ele viver o dia a dia de uma nova realidade que contrariava todos os sonhos e as expectativas cultivadas nos meses anteriores. Eu dava um passo de cada vez na direção de aceitar, compreender e amar o novo filho imperfeito, o novo destino”, escreve ela.

A história de Olivia e João é contada em O Que É Que Ele Tem (Objetiva), onde ela descreve medos, aprendizados e a caminhada de incertezas.

Algo que não se pode prever

Outro exemplo é o da escritora Joan Didion e seu bonito relato em O Ano do Pensamento Mágico (Nova Fronteira), no qual ela divide com o leitor a morte do marido. Joan fala sobre o “instante comum” em que tudo se transforma: “A vida muda num instante. Você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”, escreve ela. A morte talvez seja a incerteza em sua forma mais radical. Nela cabe a contradição de que o nosso fim está previsto, mas, ao mesmo tempo, não se pode prever.

Dar um passo de cada vez na direção de aceitar e compreender, como descreve Olivia em um trecho cheio de delicadeza já nas primeiras páginas de seu livro, talvez seja a melhor solução para os casos em que as incertezas surgem de maneira tão dilacerante: “Eu passava horas numa cadeira de balanço, com a luz apagada, pensando no porquê daquilo tudo, me sentindo escolhida, com um estranho presente do destino no colo que eu não sabia que fim teria. Começava a me dedicar a ele como qualquer mãe se dedica a seu filho. Num cotidiano bem diferente do planejado. Eu estava em construção. Estava diante do mistério da vida. Sem saber, eu já fazia parte da grande comunidade de pessoas fora do padrão, com a chance de arregaçar as mangas e buscar a alegria de novo”.

Incertezas no dia a dia

As incertezas, claro, não são sempre extremas, feitas por rompimentos que nos colocam em terreno desconhecido. Existem outras pequenas expressões de sua presença com as quais precisamos também aprender a conviver. Repare bem. Enfrentamos uma sequência de “ses” em considerações que nos põe em dúvida e deixa a sensação de estagnação ou impotência – pode ser o país e suas indefinições o que nos preocupa, o emprego instável, o dinheiro que talvez não dê para o mês, um relacionamento inseguro ou o corriqueiro “o que fazer agora?” das mais diversas situações.

A soma dessas incertezas externas, mesmo quando passam despercebidas ou não são processadas em sua inteireza de forma consciente, exerce grande influência em nós. Assim estabelecendo uma intensa troca de sensações que acaba afetando não apenas a gente mesmo mas as pessoas ao redor. “Há uma vertigem na incerteza que assusta e por isso podemos querer fugir dela”, comenta Mauro Amatuzzi, filósofo, psicólogo e doutor em educação. “Mas, se suportamos o incômodo, ela pode abrir caminhos e oferecer criatividade, porque passa pela sensibilidade aos sentidos”, completa ele sobre a oposição entre uma realidade que julgamos conhecer e outra em que predomina o desconhecido, mas que pode significar liberdade em potência e fazer brotar daí inspirações bacanas para seguir em frente. Portanto, encarar tempos ou situações de incerteza é também saber aproveitar as oportunidades que a vida nos dá para fazer diferente.

Porém, é preciso coragem para enfrentar esse vazio, “o espaço da liberdade” onde o voo acontece, em vez de preferir as gaiolas, “o lugar onde as certezas moram”, conforme recomenda o escritor Fiódor Dostoiévski em seu romance Os Irmãos Karamázov (Editora 34).

Por: Laís Barros Martins | Fonte: Vida Simples